Nada sei mais do que ser intensa

Intensidades de nada em luz

Assim brilham os corpos

Onde se sentam cabeças

Atracam pernas e braços

Mãos com dedos que se agacham

Olhos que se tocam por lazer

Auréolas que se levantam

De um rio que outrora foi viver

Correm as águas nos nossos pés

Jorradas do interior

Lágrimas e alegria

Uma junção única de amor

 

*prefixo de negação

Maio, 2020, ana’Carvalhosa

Podia

Podia o dia ser
A noite acontecer

Mas a manhã partiu
A tarde fugiu
A noite nem apareceu

Podia o dia ser
A noite acontecer

Mas flores ficaram
No cheiro das nuvens
Na observação da cor

Podia o dia ser
A noite acontecer

Mas a rua calou-se
A gargalhada abafou-se
Num gelo de morrer

Podia o dia ser
Mas a noite acomodou-se.

 

Maio, 2020 ©ana’Carvalhosa

a Razão e a Certeza

A razão e a certeza dela nunca andam lado a lado parecem o cão e o gato o gato e o rato e ninguém é apanhado
Um dia a razão falou e quis a certeza ao pé, esta nem se manifestou para não haver banzé, então a razão continuou em pé, discursando até se fartar, quando acabou, vendo que a certeza a si não se juntou, perguntou, não é assim certeza?
A certeza então levantou-se e dispôs-se a caminhar, mas qual não foi o espanto da razão quando viu que a certeza a abandonou, boqiaberta e atordoada, zangada arrancou, um cabelo que a incomodava e não mais a chateou.
A razão é coisa inacabada e a certeza voltou.

 

Maio, 2020 ©ana’Carvalhosa